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O cinema e a vida: envelhecer de forma simples, digna, livre, poética

Terça-feira, 04.06.13

 

Este é o meu David Lynch preferido (o que não é difícil... nunca entendi muito bem a sua cultura muito emocional e a sua estética onírica escapa-me completamente).
Mas esta viagem simboliza o que os afectos conseguem ultrapassar: limitações, dificuldades, obstáculos, contrariedades. 
Nesta viagem há encontros de pessoas simples o que os torna maravilhosamente complexos. A rapariga que fugiu de casa, os jovens ciclistas, o casal que o acolhe no jardim.
E conversas filosóficas sobre a vida, a guerra, os filhos, e envelhecer. Envelhecer de forma simples, digna, livre, poética.  
A vida como uma viagem.
  

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 21:48

Volto a esse rio neste Natal...

Sábado, 15.12.12

 

A minha aventura blogosférica iniciou-se a navegar num rio sem regresso. O cinema como metáfora da vida. Porque o importante é a vida, o importante são as pessoas.

 

Nesta época do Natal, que sempre senti como a época dos afectos, vou dedicar-me nesse rio aos valores humanos fundamentais. Os valores humanos combinam muito bem com o Natal, a época em que nos reencontramos com a nossa própria infância, mesmo que através dos filhos, sobrinhos, netos.

 

Comecei com a liberdade, aqui ligada à justiça e à verdade mas, de certo modo, todos os valores humanos têm origem numa mesma base: o amor, a fraternidade, a empatia. Vermos no outro um outro eu, colocarmo-nos no seu lugar, vermos a sua perspectiva, sentirmos a sua aflição como nossa. 

É verdade que nem todos têm esta capacidade. É próprio dos psicopatas, por exemplo, não sentirem culpabilidade pelo mal que infligem a outros. É a linguagem do poder.

 

Aqui vai hoje este filme, Mr. Smith Goes to Washington, que coloquei pela segunda vez a navegar neste rio.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 23:12

Coisas simples: sonho ou pesadelo?

Terça-feira, 17.08.10

 

Ontem à noite vi, num dos canais TVCine, o famoso Surrogates com o Bruce Willis. A ficção científica, quando bem elaborada, inteligente e credível, é um meio criativo de nos revelar tendências actuais que se podem concretizar. Só nesse sentido, do real, do verosímil, estas hipóteses têm sentido para mim. Surrogates levanta diversas questões interessantes, mas não é disso que venho hoje falar aqui.

Habitualmente evito filmes com cenas violentas (e há tantos tipos de violência...), há mesmo filmes em que fecho os olhos ou vou dar uma volta até passar aquela mortandade toda. Mas ontem fiquei presa ao écran, palavra! Surrogates tem algumas cenas violentas, mas não nos apercebemos à primeira o quanto violentas são. E porquê? Porque quando se tornam verosímeis, aproximam-se da realidade, da nossa realidade actual.

No meu caso, transformou-se num pesadelo, perseguições e tiros em cenários urbanos em ruínas.

 

Lembrei-me de um post que li recentemente, O Sonho, no Then Come the Ashes, em que percebemos que o sonho é um pesadelo.

 

E descobri que também o Tio Vânia andou a sonhar esta semana... Aliás, além de inspirado, nada demove o tio Vânia. Nem o desmoraliza.


 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:50

A Música no Cinema: Ennio Morricone

Segunda-feira, 05.04.10

 

Uma ideia que me ocorreu ao ouvir de novo a banda sonora de Era uma vez na América, e que é muito subjectiva claro está, foi a seguinte: as composições de Ennio Morricone estão para o cinema como as de Gustav Mahler para a música clássica.

Reparem na melancolia. A melancolia a sério, pesada, viscosa, que se cola à pele e à alma, até deixar de doer. Quando alguém se entrega à melancolia, mergulha nela, e dificilmente sai ileso.

Sempre preferi a nostalgia à melancolia, é mais leve, quase aérea, como uma nuvem, ou como o nevoeiro antes de se dissipar. Leva-nos a viajar no tempo, mas estamos seguros por um fio que nos traz de volta, sabemos sempre que vamos regressar.

 

Voltando ao filme da música mais melancólica de todas as que ouvi de Ennio Morricone: não esquecer que este Era uma vez na América é um Sergio Leone. Aqui Robert de Niro num dos seus papéis. A tristeza naquele olhar quando se encontra com o homem que um dia fora seu amigo. Não há palavras para descrever aquele olhar. 

E já viram cena mais triste do que a cena final, quando Robert de Niro adormece a sua dor numa casa de ópio? Aquele sorriso completamente ausente? Só Ennio Morricone para conseguir traduzir aquela ausência em música.

 

E assim também para a composição do Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore. Há lá música mais triste e nostálgica? Aquele realizador solitário a percorrer as memórias de infância, as personagens, os afectos, o grande amor ao cinema, a paixão de adolescente de que nunca se recompõe...

 

As minhas composições preferidas, as que condizem mais com a minha natureza pouco dada à melancolia, são as dos filmes The Untouchables de Brian De Palma e Na Linha do Fogo de Wolfgang Petersen. Este último, já está a navegar aqui...

De qualquer modo, as mais famosas penso que ainda são, além da do filme Cinema Paradiso, as do filme de Sergio Leone Era uma vez na América e do filme de Roland Joffé, The Mission. 

  

 

 

 

  

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:11

Viagem no tempo-espaço com um ramo de oliveira

Terça-feira, 30.03.10

 

Esta é a minha semana preferida do ano, a que vai do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa. Assim como o meu mês preferido é o Maio florido. E a estação do ano, a Primavera. E a flor, a rosa frágil e efémera, mas tão perfumada, de Santa Teresinha.

Num tempo em que se desvalorizam os símbolos, os rituais a marcar o nosso percurso, a dar-lhe um ritmo e um sentido, e a lembrar-nos a nossa condição frágil e transitória, mas única e irrepetível, mantenho só para mim os meus próprios marcos. E esta semana é um deles.

E não consigo evitar, tal como o protagonista do Life on Mars, viajar no tempo até essa Páscoa nos finais dos anos 60, em que levei um ramo de oliveira, tal como todos nesse Domingo levaram, nesse Domingo de Ramos.

Eu era, digamos, o que se pode chamar uma criança impressionável, levava tudo muito a sério. Vivia a realidade como se fosse um filme e via os filmes como se fossem realidade. Aquele ramo de oliveira simbolizava a paz. Protegi-o como a uma preciosidade.

 

Hoje, depois do regresso no tempo-espaço, vejo o terrível paradoxo da natureza humana nesse percurso de Cristo, aclamado e acarinhado pela multidão, para pouco tempo depois escolherem Barrabás. Este é um dos dilemas da natureza humana.

O próprio percurso de Cristo, nesse período, revela-nos, de certo modo, a história humana que se repete pelos tempos sem fim todos os dias e em todos os lugares do mundo. Revela-nos que a paz é efémera, um impulso frágil, um entusiasmo. Como se as pessoas não conseguissem nela permanecer por muito tempo ou não conseguissem coabitar sem conflitos. Cristo foi acarinhado pela multidão nesse dia de ramos... para, na hora da verdade, em que a paz era mais necessária, o discernimento, a consciência, a empatia, ser esquecido e abandonado.

Esta é uma visão muito simplista da história, eu sei, Cristo tornou-se incómodo para os representantes religiosos (esqueço-me sempre dos termos correctos, enfim, para a hierarquia religiosa, os sábios, os doutores, que um dia o tinham ouvido em menino no templo). A sua mensagem comprometia a sua posição, tal como hoje, os representantes da hierarquia, e já nem me refiro apenas à Igreja que até tem insistido nisto, mas ao poder temporal. Preferem calar a escravização em curso do povo que supostamente representam porque os elegeu, a perturbar a lógica injusta e ilegítima de privilegiados (a "nova elite") e escravos (o contribuinte de fracos rendimentos e o reformado indefeso). Sim, a mensagem de Cristo comprometia a diplomacia conveniente com o poder de Roma.

 

Mesmo que Cristo tenha definido as fronteiras naquela frase A César o que é de César, a Deus o que é de Deus, não se submeteu à lógica da linguagem do poder, colocou-se num plano imune a essa lógica terrena, o seu reino não era deste mundo, e isso era incompreensível, inaceitável. Ainda hoje me interrogo: a que é que Cristo se referia, em que plano ou dimensão, quando define aquela fronteira enigmática?

Inclino-me a pensar que essa frase ainda hoje é mal interpretada por muitos. Porque a mensagem de Cristo compromete, desde logo, esse limite, ao colocar todos na dimensão de filhos de Deus, todos, sem excepção, numa irmandade igualitária. Isto implica a libertação da escravidão, a sua mensagem não pode conviver com donos e escravos, com a linguagem do poder. E os homens que espalham a mensagem não podem ficar indiferentes a essa lógica que escraviza, simplesmente não podem. A sua mensagem também implica a dignificação da vida de cada um, como única, preciosa, irrepetível. Novamente, o que fazeis ao mais pequeno de vós é a mim que o fazeis.

 

Mas poderia a frase significar que estes dois planos, o terreno e o divino, nunca se encontram, nunca coexistem? E, tal como no filme Rio sem Regresso, quando Marilyn sonha viver num lugar onde as pessoas sejam tratadas como seres humanos, Robert Mitchum responde: Isso é no céu...? Como se não fosse possível viver essa paz e respeito mútuo no plano terreno? Mas não faz sentido. Essa é a lógica do mártir, e ficaria por aí, pela sua afirmação libertadora através da sua morte, e pela repetição de martírios sem fim à vista que não seja perpetuar a vítima e reforçar o poder do predador. Já para não falar dos mártires de que não sabemos, essa pena máxima silenciada, sem julgamento sequer...

 

E tudo isto num simples ramo de oliveira que levei nesse Domingo de Ramos numa Páscoa de finais dos anos 60...

É por tudo isto que em vez de paz prefiro dizer empatia, porque é a capacidade humana de sentir o que o outro sente, a única que permite essa libertação da lógica da linguagem do poder, que cria conflitos porque não sabe (não pode) viver em paz, porque precisa de dominar e manipular para preencher o seu vazio interior, porque é o ódio e a morte que o motivam (e que também definem a sua acção).

E sim, é possível aprender a viver na cultura da amabilidade na diversidade. E sim, é possível identificar as sementes de violência e os "falsos deuses" que dela se alimentam. E sim, é possível a responsabilidade individual, cada um no seu papel, na colaboração mútua. E sim, é possível uma nova organização social mais livre e, ao mesmo tempo, mais equilibrada e justa e, por isso mesmo, mais inteligente também.

 

 

 

Também aqui: sobre a composição de Jesus Christ Superstar.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:01

Pequenas alegrias: rever o "Picnic"

Domingo, 07.03.10

 

Hoje, no canal Hollywood. Difícil explicar como este filme me hipnotiza. Não é o único, mas tem sempre este efeito.

A peça, os diálogos, as personagens, são parte da explicação. Os actores também. A realização, a atmosfera, as cenas, os planos, o ritmo. O cenário, a época. A atmosfera de todo o filme.

 

Ao rever Picnic, talvez pela quarta vez, lembrei-me que tenho de actualizar o meu perfil, na parte dos filmes preferidos. E já agora, os livros também. Esta lista de autores acompanhou uma parte do meu percurso e por isso lhes estou grata. E à vida também. Como poderia ter sobrevivido estes anos todos se não fossem os meus autores? Impossível. Mas descubro, com alguma perplexidade, que qualquer coisa de fundamental se está a revelar através das alterações na minha lista de filmes preferidos.

 

Picnic faz parte dessa lista de filmes, e eu nem tinha reparado. É sempre a mesma magia. Aqueles subúrbios nos anos 50, uma cidadezinha a crescer, com rituais culturais de cidade do interior, de uma vida muito comunitária. De estratos sociais muito definidos. De ambições legítimas de um lugar ao sol. De oportunidades que se têm uma vez na vida. De inícios de percursos até aí apenas acessíveis a alguns.

 

Estereotipos sociais de que é difícil escapar: o atleta que podia ter sido alguém se não tivesse reprovado no 3º ano da faculdade; o filho de pai rico e a aprendizagem da gestão da empresa; o pai rico e competitivo, respeitado na cidade; o homem solteirão habituado ao seu espaço e aos seus hábitos; a rapariga bonita e encantadora, que quer amar e ser amada; a rapariga inteligente, a intelectual; a mãe, que apenas quer o melhor para as suas filhas, mas segundo a sua própria perspectiva; a mulher tranquila e realista que serve de suporte afectivo àquela mulher que o homem abandonou, e às suas filhas; a professora independente, que percebe subitamente que a arrogância a distanciou das suas verdadeiras necessidades.

 

Como escapar ao estereotipo social numa pequena comunidade?

A rapariga bonita consegue. Depois de ajudar o homem, a quem consideram falhado, a ver-se a si próprio pelo seu olhar carinhoso e generoso: tens óptimas qualidades. É dessa amabilidade que o homem precisa para acreditar em si próprio e recomeçar de um outro ponto de partida. Ele também lhe mostrara que ela era bem real, de carne e osso, e não uma miragem que serve de troféu.

A professora independente também consegue. Reconhece o seu erro nessa noite de loucura e de lucidez, e revela o seu receio essencial ao namorado solteirão que ainda tenta esquivar-se. Em vão. Na manhã seguinte já tem o destino traçado: casamento e lua-de-mel.

 

Nunca poderemos avaliar os efeitos nocivos e perversos dos estereotipos sociais. É certo que as pessoas têm esta terrível tendência de arrumar tudo em gavetas e prateleiras, mas tal nunca será possível com a complexa natureza humana. Nem benéfico.

E é bom saber que, mesmo tendo vivido com esse limite, é sempre possível alterar esse condicionamento, esse papel pré-definido, de um comportamento expectável.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:13

A Música no Cinema: Andrew Lloyd Webber

Sábado, 27.02.10

 

Das composições de Andrew Lloyd Webber, a minha preferida ainda é Jesus Christ Superstar.

Não se zanguem os fãs das suas peças musicais, não me gritem aos ouvidos: e os Cats?, a Evita?, O Fantasma da Ópera?

Cada um gosta mais do que sente, do que faz ressonância nos seus neurónios e nos nervos restantes, na corrente sanguínea, nos pulmões, nos músculos, nas articulações...

 

É esse arrepio e essa comoção que eu sinto ao ouvir as composições de Jesus Christ Superstar, mas têm de ser as do filme. Daquela aventura no deserto.

Um autocarro chega, vários jovens de jeans saem e vestem a pele das personagens. Cristo é a mais trágica. E Judas. E os apóstolos. E Maria Madalena. E os chefes da comunidade judaica. E Herodes. E Pilatos.

Todos se perfilam no seu espaço-tempo próprio. E a tragédia começa. Começa de forma poética, as vozes sonham. Cristo é ouvido, pensa ele. Na verdade, nunca saberemos quem realmente o ouviu. Quem realmente o percebeu. Essa eterna solidão está nesta peça musical. O percurso de fim trágico já se adivinha.

A linguagem do poder. A indiferença. O oportunismo. A alienação da multidão que se apressa a seguir um mestre para logo a seguir o negar. A multidão que escolhe Barrabás. E o fim.

 

Reparem como a música acompanha as diversas tonalidades da peça, das personagens, da sua tragédia pessoal ou da sua alienação intrínseca.

A voz de Cristo no jardim das oliveiras, o seu desespero solitário, a rejeitar o papel trágico, a morte, o fim do sonho.

Lloyd Webber consegue aqui traduzir em música todas as emoções e sentimentos que esta tragédia envolve: a esperança, o amor, o medo, o desprezo, a indiferença, a traição, a solidão, o desespero, o arrependimento. Está lá tudo, nesta peça musical. E isso é verdadeiramente notável.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:20

"Life on Mars"

Segunda-feira, 22.02.10

 

Meus queridos amigos, não se pode voltar para trás. Simplesmente não se pode.

Até o protagonista de Life on Mars, que foi parar a 73 por engano, não se sente em casa. Desconfio que não é apenas por ter perdido tudo, a família, os amigos, o trabalho, o habitat. É uma diferença cultural imensa! De hábitos, de valores, de referências, de coordenadas.

Podemos até especular: ah, os loucos anos 20, os românticos anos 40, ou até ser mais ousados, o tempo dos salamaleques e dos duelos, porque não?

Mas hoje temos acesso a essas épocas, pelos livros e pelos filmes, sem os inconvenientes das suas enormes dificuldades.

Estou convicta que cada época exige as suas capacidades de sobrevivência e que se tivessemos o azar do protagonista de Life on Mars de irmos parar ainda mais longe, aos anos 20 ou 40, ou pior!, ao séc. XIX, não sobreviveríamos muito tempo. A nossa resistência de estufa, habituada a vacinas e comprimidos? Impossível mantermo-nos lá saudáveis por muito tempo.

 

Isto tudo para dizer o quê? Que a nível cultural, das referências e dos valores, mesmo os que não são assimilados por todos ou partilhados por todos, há já uma informação, um conjunto de factos, que foram interiorizados na memória colectiva. Factos que não se podem apagar simplesmente. É uma herança de um colectivo.

 

As excepções? As tribos isoladas de alguns pontos do globo, os Amish, os Mórmons, etc. O que implica necessariamente isolamento total ou quase total da contaminação cultural da sociedade, como está organizada.

Também incluiria aqui algumas populações de países mais pobres que, conforme Alvin Toffler previu, estão a ficar excluídas da informação global. E mesmo nos países com recursos, aumentarão essas franjas de excluídos, como ele previu.

 

Para o bem e para o mal, somos portadores de uma memória colectiva, de um conjunto de factos, de dados, de informação, a que já não podemos escapar ou negar. Herdámos esses manuais, esses dicionários, esses acontecimentos, essas alterações, a evolução tecnológica, científica, filosófica.

Voltar atrás é negar tudo isso. A nossa consciência colectiva já deu um salto, nem sei bem se será apenas um degrau ou dois, vejo-o mais como um salto sobre uma falha no caminho. Saltámos por cima de tanta coisa!, mesmo sobre valores éticos e morais que se julgaram intransponíveis.

Por outro lado, passámos a valorizar outros valores: a vida humana, por exemplo, adquiriu outro estatuto, embora ainda com imensas falhas. Na protecção das crianças e dos mais velhos, por exemplo, andámos mal, muito mal.

Mas na aceitação das diferenças de estilos de vida, vejam o enorme salto! As mulheres mais aguerridas pisaram o risco, nunca antes tolerado pelos homens, começaram a participar em áreas e a conquistar direitos. Este é aliás um dos pormenores culturais que mais choca o protagonista do Life on Mars e já se estava em 73!


 

2ª parte do post (ver Nota de esclarecimento):

A complexidade da natureza humana e a complexidade dos comportamentos, das opções de vida, não pode agora ser apagada da nossa memória colectiva, porque isso seria negar o avanço cultural, filosófico, científico. Mas pior!, seria negar a própria natureza humana!

O filme agora aí, Um Homem Singular, mostra isso, essa complexidade. Talvez daí o interesse dos espectadores: tem tido uma boa audiência. Essa curiosidade pode dever-se a Tom Ford, mas alguma coisa me diz que estamos ávidos de uma perspectiva, de uma compreensão, sobre a complexidade humana.

 

Nunca falámos colectivamente sobre isso, foi-nos imposto um modelo de vida, como se se tratasse de uma moda, a camada superficial do tema, a parte espectacular, confundindo público e privado, e ainda por cima uma lei fracturante, que nem sei se é a que melhor responde a direitos equivalentes à da maioria dos cidadãos e à forma como a maioria organiza a sua vida.

Mas agora responder a esse erro com outro erro, é que não me parece avisado e sensato. Trata-se de pessoas, das suas vidas, de naturezas e percursos. E trata-se de liberdade também. Já não podemos andar para trás. Nem seria desejável.

É por isso, a meu ver, que este filme Um Homem Singular, é um bom ponto de partida para uma análise e uma reflexão colectiva, calma e distanciada. Distinguindo os planos, destacando as prioridades, vantagens e desvantagens deste e daquele modelo.

Talvez até dê para, os que se organizam de forma diversa, com diferentes opções de vida e de organização familiar, verificarem se se revêem nas associações e organizações que os representam, ou mesmo na forma como os partidos pegaram (abusiva e oportunísticamente, a meu ver) nas suas pretensões, a forma como o fizeram, perfeitamente inábil. E recomecem do zero. Esta lei não lembra ao diabo, realmente, e poucos darão esse passo, o casamento. Muitos certamente desejariam outro tipo de contrato, equilibrado nos direitos e específico a cada situação.

 

Agora, não dar sequer ao outro o direito de existir apenas por ser diferente, é que me deixa perplexa. De certo modo já esperava reacções excessivas a propagandas que foram, também elas, excessivas, mas negar a existência do direito de existir aos homossexuais? Negar a homossexualidade?

Foi sempre a negar alguma parte da natureza humana, que surgiram as maiores opressões ditatoriais. Esta negação, esta agressividade a que pode chegar este debate, é também um sinal de alarme.

Numa democracia respeitam-se as diferenças e procura-se equilibrar direitos e deveres de todos os cidadãos. É também esse o significado da liberdade. E também foi esse o significado de estar no dia 11 em frente da AR.





Nota de esclarecimento a 20 de Outubro de 2013: Primeiro pensei simplesmente deletar as partes dos posts que já não correspondem à minha actual assimimilação-síntese cultural. Esta mudança afinal até pode corresponder apenas a um regresso à minha consciência vital inicial.

Depois ocorreu-me o seguinte: além de ser batota apagar o que nos deixa hoje perplexos, o quê?, já pensámos assim?, o quê?, porque não utilizar essa transição mental-cultural como um magnífico e útil exemplo de que estamos sempre a mudar, a evoluir, a expandir a consciência?

Portanto, caros Viajantes, a parte deste post após a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, já não corresponde minimamente ao que hoje considero lógico-compreensível-viável-legítimo. E vou mais longe: é muito provável que nunca tenha sido uma questão essencial para mim mas apenas uma teimosia mental, um pormenor legislativo que não me pareceu lógico na altura.

Desde que me conheço que aceitei as pessoas incondicionalmente. Cresci rodeada de livros e filmes e isso marca uma pessoa. Penso que parte do choque cultural que senti quando saí dessa cápsula inicial familiar, e dos equívocos que sofri nas interacções sociais e que me tornaram mais tímida e ansiosa do que era inicialmente, se deveram precisamente a esse mundo que assimilara nos livros e filmes que me tinham alargado definitivamente as fronteiras culturais.

Por isso imaginem a minha perplexidade ao reler esta segunda parte do post que já nada me diz pessoalmente. Como perdi eu tempo com pormenores legislativos? Porque me envolvi em debates que hoje já não fazem qualquer sentido? Porque considerei que sabia o que era melhor para quem tentava encontrar uma nova forma de oficializar social e juridicamente uma família?

Mas a primeira parte do post aproveita-se, a meu ver, é uma ideia que me tem acompanhado quendo ouço falar em viagens no tempo ou em contactos com espécies de outros planetas. Isso sim, é que é um desafio mental que vale a pena.


   

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:42

Pequenas alegrias: revisitar os anos 70

Sábado, 20.02.10

 

Sendo um exemplar de uma adolescente na década de 70, gostei muito da irreverência de David Bowie, na personagem andrógina provocante e no som original. E gostei de ver que continuou a compor como se o filão nunca se esgotasse, sempre inovador. David Bowie fez da sedução o seu maior trunfo, mais parecia um marciano que tivesse acabado de aterrar no palco. E as fotografias das capas dos discos eram simplesmente fabulosas.

Hoje descobri, numas gravações antigas, uma canção que não conhecia e que fala do vento... let me fly away with you... my love is like the wind... we are like creatures of the wind... fala desse paralelismo do amor e do vento nas árvores... a voz imita o som do vento... a canção é lindíssima, não sei explicar melhor.

 

Revisitei também o som de John Lennon, já pós-Beatles. John Lennon tinha esse sentido artístico-filosófico-político, uma autêntica obsessão, fez do seu activismo uma forma de vida, uma constante performance, essa dimensão da revolta de um Power to the People ou essa utopia poética do Imagine.

É das personagens mais fascinantes dos anos 70, porque os acompanha de muito perto, é o seu rosto, com uma mensagem sempre irreverente. Também não lhes sobreviverá, a aventura que foi a sua vida termina precisamente no último ano da década. 

 

Os anos 70, já o disse aqui, foram de certo modo paradoxais, porque a par de uma sociedade ainda muito fechada e convencional, surgia outra camada, sobretudo juvenil e ligada à arte, muito irreverente e excessiva, muitos deles universitários e activistas, em que a liberdade era pura e simplesmente a ausência de limites.

Talvez por isso mesmo, por essa ausência de fronteiras, foi uma época tão fascinante. E, também por isso, decadente. Mas ainda assim, fascinante.

 

E talvez por isso mesmo vemos hoje um revivalismo nalgumas séries televisivas, como Life on Mars, e nalguns filmes também, como o The Darjeeling Limited.

 

Não deixa de ser irónico, porque também os anos 70 foram revivalistas dos anos 20 e 30, no design de roupa e no cinema. Talvez porque são épocas com traços comuns, como a rebeldia e a liberdade, nas ideias e nos comportamentos. Talvez porque nelas encontraram provavelmente paralelismos estéticos e culturais.

Exemplos de filmes (curiosamente em todos eles entra o Robert Redford): The Way We Were, The Sting e The Great Gatsby.

 

  

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:28

Do Tempo das Descobertas: A família no início e fim de tudo

Quinta-feira, 18.02.10

 

De Pedro Correia no Delito de Opinião, esta viagem pelos filmes de 2009 "que valorizam o argumento", "a espessura psicológica das personagens" e as "subtilezas do diálogo". E em que a família surge como "eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também".

 

 

" A família no início e fim de tudo

 

 

A família continua a ser matéria-prima essencial da ficção cinematográfica, como os filmes exibidos entre nós em 2009 bem demonstraram, na linha de uma sólida tradição dramática do cinema clássico. Algumas das melhores longas-metragens que pudemos ver no ano passado tiveram a família como eixo central da narrativa, nas suas diversas facetas e em variados registos, da comédia ao drama. A busca desesperada de uma mãe que perdeu um filho (A Troca, de Clint Eastwood), a insuperável dor do luto (Incendiário, de Sharon Maguire), o desgaste da rotina conjugal (Revolutionary Road, de Sam Mendes), o complexo de Édipo revisitado ao som de partituras clássicas (no incompreendido Tetro, de Francis Ford Coppola). As quatro paredes domésticas como cenário dos mais complexos dramas psicológicos (O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, e Duplo Amor, de James Gray). A cegueira física como metáfora da diluição do amor (Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar). As memórias dolorosas suscitadas por um repasto familiar nesse filme assombroso que é Um Conto de Natal, de Jean-Paul Roussilon). A velhice nostálgica mas ainda sorridente (Almoço de 15 de Agosto, de Gianni di Grigorio). Uma inesperada catarse provocada pelo desamparo da viuvez (no fabuloso Gran Torino, de Clint Eastwood, sem dúvida já uma das obras mais marcantes da década).

 

 

Filmes muito diferentes mas com características comuns. Este é um cinema que valoriza o argumento, que acentua a espessura psicológica das personagens, que sente um especial fascínio pelas subtilezas do diálogo. E é fundamentalmente um cinema de actores, que nos fornece sobretudo um excepcional naipe de interpretações femininas. Como esquecer o olhar dilacerado de Angelina Jolie n' A Troca - até à data o melhor papel da sua carreira? Impossível ficar indiferente à revolta interior da deslumbrante Michelle Williams nas cenas fulcrais de Incendiário ou à transfiguração de Anne Hathaway numa inspirada actriz dramática em O Casamento de Rachel. E quem supõe que o cinema é uma arte em declínio deverá reparar no subtil jogo de alterações fisionómicas que acompanha a evolução da personagem de Kate Winslet em Revolutionary Road.

 

A família: eterno ponto de partida e inevitável ponto de retorno de todas as luzes e sombras de que é feita a vida. E o cinema também.  "

 

 

Imagens:

1. Anne Hathaway e Rosemary DeWitt, em 'O Casamento de Rachel'

2. Mathieu Amalric e Catherine Deneuve, em 'Um Conto de Natal'

 3. Gwyneth Paltrow e Joaquin Phoenix, em 'Duplo Amor'

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:38








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